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A água é um dos insumos mais utilizados na indústria, especialmente em processos que exigem elevado grau de pureza. Nesse contexto, destacam-se a água destilada e a água deionizada, amplamente empregadas em setores estratégicos como farmacêutico, eletrônico e energético.
Embora ambas tenham como objetivo a remoção de impurezas, suas diferenças nos mecanismos de purificação, custos e aplicabilidade industrial resultam em usos distintos. Além disso, o consumo dessas águas ocorre em escalas extremamente elevadas, tornando-as relevantes não apenas do ponto de vista técnico, mas também econômico e ambiental.
Parâmetros químicos na purificação das águas
A água destilada é obtida por destilação, um processo físico baseado na mudança de fase (líquido → vapor → líquido)
Durante o processo, a água evapora na forma de H₂O(g), enquanto íons dissolvidos permanecem no recipiente original. O vapor é então condensado, resultando em uma água com baixa concentração de sais. O processo de destilação é altamente eficaz na remoção de uma vasta gama de solutos inorgânicos. Entre os principais íons retirados estão o cálcio e o magnésio, responsáveis pela dureza da água, além de sódio, potássio, cloretos, sulfatos e carbonatos. Além dos sais minerais, a técnica elimina metais pesados, como chumbo e mercúrio, e contaminantes provenientes de atividades agrícolas, como os nitratos. Por fim, a destilação também atua na descontaminação biológica, eliminando microrganismos e garantindo um produto final adequado para aplicações laboratoriais e industriais que exigem ausência de interferências iônicas.
Uma das principais interações químicas associadas à água destilada ocorre com gases dissolvidos, especialmente o dióxido de carbono:
CO₂ + H₂O ⇌ H₂CO₃
Essa reação pode levar à formação de ácido carbônico, tornando a água levemente ácida após exposição ao ar.

A produção de água deionizada (ou desmineralizada) é um processo químico que utiliza resinas de troca iônica para remover íons carregados, em vez de usar calor e ebulição como na destilação.
A etapa essencial pode ser representada pela reação global:
H⁺ + OH⁻ → H₂O
Nesse processo, cátions e ânions são substituídos por H⁺ e OH⁻, que se recombinam formando água, resultando em baixíssima condutividade elétrica.
Apesar da alta eficiência na remoção de íons, esse método não elimina compostos orgânicos neutros nem microrganismos sem etapas adicionais de purificação.
Aplicações industriais e escala de consumo
A importância de cada uma depende totalmente do setor industrial e do objetivo final. Não existe uma “melhor”, mas sim a mais adequada para cada processo.
Atualmente, a água deionizada domina a maior parte das linhas de produção devido ao custo e à eficiência química.
A utilização de água de alta pureza está diretamente associada à demanda por controle de contaminação em processos produtivos. Em escala global, a água derivada principalmente da deionização, atinge bilhões de litros consumidos diariamente.
Alguns exemplos dos diversos ramos industriais, são:
Indústria eletrônica
A indústria de semicondutores utiliza tipicamente entre 10 e 15 milhões de litros por dia por planta industrial, devido à necessidade extrema de controle de contaminação iônica.
Indústria farmacêutica
Instalações industriais produzem entre 100.000 e 500.000 litros por dia de água purificada, sendo a água deionizada voltada para processos produtivos e a destilada para aplicações críticas
O tipo de água utilizada predominantemente é a água deionizada (ou desmineralizada), pois essa água é utilizada em:
• Alimentação de caldeiras
• Geração de vapor de alta pressão
• Sistemas térmicos
O consumo de água varia conforme o porte da usina, mas, de modo geral, apresenta valores elevados. Usinas termoelétricas operam com fluxos contínuos que podem atingir milhões de litros por dia, enquanto caldeiras industriais geram vapor de forma constante, exigindo reposição contínua de água tratada para manter a eficiência do sistema. Embora uma parcela significativa dessa água seja reciclada ao longo do processo, ainda há necessidade de reposição contínua para compensar perdas e garantir a qualidade adequada para operação.
Consumo industrial total de água
No Brasil, a indústria consome cerca de 190,5 m³/s de água, representando aproximadamente 9,4% do uso total de recursos hídricos.
Para contextualizar esse volume em termos comparativos, é possível relacioná-lo ao consumo de leite no país:
• O consumo médio de leite no Brasil é de aproximadamente 128 litros por pessoa por ano segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária
• Considerando a população brasileira, isso corresponde a dezenas de bilhões de litros de leite consumidos anualmente, de acordo com dados do IBGE de 2025
Já o consumo de água industrial ocorre em escala muito superior:
• Apenas uma única indústria pode consumir milhões de litros de água por dia
• O volume total de água utilizado pela indústria brasileira equivale a trilhões de litros por ano
Essa comparação evidencia que o uso de água, especialmente em processos industriais e na forma de “água invisível” — ocorrem geralmente escala significativamente maior.
Custos e viabilidade econômica
Os custos associados à produção de água de alta pureza variam de acordo com a escala e o grau de pureza exigido. No caso da água destilada, em pequena escala, os valores costumam variar entre aproximadamente R$ 3 e R$ 10 por litro, sendo esse custo influenciado principalmente pelo alto consumo energético necessário para o aquecimento e a mudança de fase no processo de destilação.
Já a água deionizada apresenta custos mais baixos, com valores em pequena escala variando entre aproximadamente R$ 1 e R$ 5 por litro. Em escala industrial, devido à operação contínua e ao uso de resinas regeneráveis, esse custo pode ser significativamente reduzido, atingindo valores na ordem de centavos por litro, o que contribui para sua ampla utilização em processos industriais de grande volume.
A diferença está diretamente associada ao processo:
• Destilação: intensiva em energia
• Deionização: operação contínua com resinas regeneráveis
A produção de água deionizada e destilada é realizada por empresas especializadas em tratamento de água industrial.
Empresas atuantes no Brasil:
• GE Water & Process Technologies
• Veolia Water Technologies
Essas empresas operam no setor com faturamentos na ordem de centenas de milhões de reais no Brasil.
Empresas globais:
• Veolia
• SUEZ
• Kurita Water Industries
• Evoqua Water Technologies
A Veolia apresenta faturamento global na ordem de dezenas de bilhões de euros, evidenciando a dimensão econômica do setor de tratamento de água industrial.
Agora falaremos diretamente do impacto do consumo dessas águas, mesmo entendendo que sua função é essencial para o processo produtivo mundial e é insubstituível, deve-se considerar os impactos negativos para podermos criar alternativas sobre essas consequências.
Impactos positivos
A disponibilidade de água de alta pureza viabiliza diversos setores fundamentais da economia moderna, permitindo a produção de dispositivos eletrônicos com alto grau de precisão, a fabricação segura de medicamentos e ageração eficiente de energia. Esses processos dependem diretamente da qualidade da água para garantir desempenho, confiabilidade e padronização, tornando esse recurso um elemento estratégico para o desenvolvimento tecnológico e industrial.
Impactos negativos
Por outro lado, o uso intensivo dessas águas gera desafios relevantes, como o elevado consumo de recursos hídricos e o alto gasto energético associado aos processos de purificação. Além disso, em regiões que já enfrentam escassez de água, a demanda industrial pode intensificar a pressão sobre o abastecimento, gerando conflitos pelo uso desse recurso e exigindo soluções mais eficientes de gestão e reutilização.
Assessora de Projetos